Vais renovar o seguro do carro e o preço subiu 40 euros. Não fizeste nenhum sinistro. Não mudaste de carro. O que aconteceu?
Resposta curta: um algoritmo decidiu que agora vales mais de risco.
Em julho de 2026, no Marketeer Seguros Summit, ficou claro que as seguradoras em Portugal estão cada vez mais dependentes de IA para precificar apólices. Longevidade, clima e regulação foram os três eixos identificados. Mas o que isto significa para ti, na prática, é uma coisa: o teu preço deixa de ser uma tabela fixa e passa a ser calculado por um modelo que te avalia em tempo real.
Vou explicar como funciona e o que podes fazer para pagar menos.
Que dados a IA usa para te avaliar
As seguradoras sempre usaram dados para calcular prémios. Idade, histórico de sinistros, tipo de veículo. Nada de novo aqui.
O que mudou é a quantidade e o tipo de dados.
Em 2026, os modelos de IA cruzam dezenas de variáveis que antes não eram consideradas:
- Padrões de condução (se tens telemática no seguro automóvel, a IA sabe se travas muito, se excedes a velocidade, que horas conduzes)
- Dados meteorológicos da tua zona (eventos climáticos extremos aumentaram 23% em Portugal nos últimos 3 anos, segundo dados do IPMA)
- Comportamento de pagamento (atrasos recorrentes podem aumentar o teu score de risco)
- Dados de telemóvel (sim, algumas seguradoras usam padrões de movimento para prever risco)
- Histórico de pesquisas online (em alguns mercados, já é realidade)
Isto não é ficção científica. A ASF (Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões) já publicou 18 objetivos para 2026 a 2028 que incluem regulação específica sobre o uso de IA no setor segurador.
O problema: não sabes o que a IA pensa de ti
Aqui está a parte chata. Tu não vês o teu score de risco.
Vais ao site da seguradora, pedes uma simulação e recebes um número. Não te dizem como chegaram lá. É uma caixa preta.
Isto tem três consequências práticas:
- Não sabes o que mudar para baixar o preço. Se o modelo te penaliza por conduzir às 2 da manhã, mas ninguém te diz isso, como é que corriges?
- Comparações entre seguradoras são difíceis porque cada uma usa um modelo diferente com dados diferentes.
- Erros happen. Dados desatualizados ou incorretos podem inflacionar o teu prémio sem que percebas porquê.
A boa notícia? A ASF quer obrigar as seguradoras a serem mais transparentes sobre os fatores que influenciam o preço. Mas ainda não lá chegamos.
Checklist: como pagar menos pelo seguro em 2026
Já que não controlas o algoritmo, controla o que podes. Aqui vai uma checklist prática:
- Pede sempre três cotações. Mesmo que gostes da tua seguradora. A diferença entre a mais barata e a mais cara pode chegar aos 600 euros por ano no multirriscos.
- Atualiza os teus dados. Se mudaste de emprego, se conduzis menos quilómetros por ano, se instalaste alarme em casa. Qualquer coisa que reduza o risco deve ser comunicada.
- Desliga a telemática se não te compensa. O seguro com caixa preta (telemática) pode ser mais barato para condutores jovens. Mas se a IA te classifica como mau condutor, ficas mais caro. Avalia o teu caso.
- Aumenta a franquia. Se tens fundo de emergência, assumir um pouco mais de risco na franquia baixa o prémio mensal de forma significativa.
- Junta apólices. Multirriscos + automóvel + saúde na mesma seguradora dá desconto. A IA gosta de clientes que ficam.
- Não aceites renovações automáticas sem comparar. O aumento médio na renovação automática em 2026 é de 12%. Quem compara, poupa.
- Pede explicação. Se o prémio subiu sem motivo aparente, tens o direito de perguntar porquê. Algumas seguradoras já oferecem essa transparência.
Se queres ir mais fundo em como usar IA para comparar propostas, leia também este guia sobre IA para comparar seguros. Mostra como usar o ChatGPT para analisar propostas lado a lado.
E se tens medo que a IA substitua o teu mediador de seguros, este artigo explica porque isso não vai acontecer tão cedo. O humano ainda tem um papel importante, especialmente na negociação.
O que vem a seguir
A regulamentação da ASF vai obrigar as seguradoras a explicar melhor como calculam os preços. Até lá, a melhor estratégia é comparação agressiva e atualização constante dos teus dados.
A IA não é inimiga. Pode trabalhar a teu favor se souberes como funciona. Mas não é a tua amiga se ficares parado a pagar o que te pedem sem perguntar.
Se já recebeste um aumento de prémio este ano, conta nos comentários quanto subiu. Ajuda outros leitores a perceber se o problema é generalizado ou só teu.